Pesquisas atuais sobre a construção do conceito de número: para além de Piaget?
Clélia Maria Ignatius Nogueira
RESUMO
As atuais pesquisas acerca da construção do número vêm resgatando o papel desempenhado pelas atividades numéricas (em particular, a contagem) na construção do número. Para a maioria dos autores dessas pesquisas e outros estudiosos do tema, os resultados mais recentes, quando não contrariam, ultrapassam, do ponto de vista teórico, o estágio alcançado pelas pesquisas do Centro Internacional de Epistemologia Genética. Neste trabalho discutimos o papel da contagem no desenvolvimento do número segundo a Epistemologia Genética. Buscando destacar a atualidade da teoria piagetiana, comentamos algumas das recentes pesquisas e propostas metodológicas sobre a construção do conceito de número que se fundamentam quase que exclusivamente na contagem, procurando verificar se os resultados encontrados ou as sugestões apresentadas pelos pesquisadores estariam, do ponto de vista teórico, “além de Piaget”.
Palavras-chave: contagem; construção do número; epistemologia genética.
Para acessar o texto completo clique no link abaixo:
https://www.redalyc.org/pdf/1550/155019936008.pdf
Antes da discussão sobre o texto assista o vídeo:
https://youtu.be/s_RAM1LLM5c
Antes da discussão sobre o texto assista o vídeo:
https://youtu.be/s_RAM1LLM5c
Processos mentais básicos para aprendizagem da Matemática na educação
infantil:
(Extraído de Educação
Infantil e percepção matemática, e Sergio Lorenzato)
Correspondência: ato de estabelecer uma relação “um a um”.
·
Um prato para cada pessoa;
·
Cada pé com seu sapato;
Mais tarde a correspondência será
exigida em situações do tipo: a cada quantidade, um numeral; a cada posição
(numa sequência ordenada), um número ordinal.
A correspondência é um processo mental fundamental para a construção do
conceito de número e das quatro operações. Grande parte das dificuldades que as
crianças apresentam, na aprendizagem inicial da aritmética, deve-se ao fato de
elas não terem compreendido o processo de correspondência em toda sua
abrangência.
A fim de facilitar a compreensão desse processo, a correspondência deve
ser abordada por etapas. Elas são quatro, com objetivos bem distintos e que
visam favorecer:
a) A percepção visual direta, apresentando uma disposição espacial que
ressalta a correspondência ótica, visual, de elemento para elemento.
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b) A percepção visual indireta, pois a disposição espacial dos elementos de
um conjunto é diferente da disposição espacial dos elementos do outro conjunto.
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c)
A correspondência de um elemento de
um conjunto, com vários elementos de outro conjunto, e vice-versa.
Ex: dois palhaços, dois chapéus, quatro sapatos e oito botões. A criança
deve dar a cada palhaço um chapéu, dois sapatos e quatro botões.
d) Associação de uma mesma ideia presente em dois objetos diferentes.
Ex: uma cartela com os desenhos de martelo, trem escova de dente, pé e
arvore e outra com os desenhos de prego, folha, bota, trilhos e tubo de pasta
de dente.
Observação importante: Apesar de a correspondência ser um processo
necessário na formação do conceito de número, o fato de uma criança conseguir
realizar a correspondência um a um não garante que ela esteja percebendo que os
dois conjuntos têm a mesma quantidade de elementos.
Comparação: ato de estabelecer diferenças ou semelhanças.
·
Esta bola é maior que aquela;
·
Moro mais longe do que ela;
·
Somos do mesmo tamanho?
Mais tarde virão: quais destas
figuras são retangulares? Indique as frações equivalentes.
Naturalmente, a criança
já faz comparações fora da escola
tamanhos, formas, cores, quantidades. Cabe ao professor, na escola,
aproveitar esses conhecimentos para estimular as crianças a encontrar
semelhanças e diferenças que caracterizam o que desejam comparar.
O processo de
comparação envolve noções elementares como a de tamanho, distância, quantidade,
com as quais as crianças convivem desde cedo. Há que se considerar que:
a) O tipo mais fácil de comparação é aquele entre dois elementos da mesma
espécie.
b) Quando os elementos são de espécies diferentes é necessário cuidado em
não apresentar em um mesmo desenho, por exemplo, um grande rato e um pequeno
elefante e perguntar: “Qual é maior?” Qualquer resposta seria válida!
c)
Toda comparação entre três elementos
é mais difícil.
Por exemplo, comparar o tamanho de uma girafa, um gato e um rato. Está
embutida aí a ideia de relatividade: ao mesmo tempo que o gato é menor (que a
girafa) é maior (que o rato). Pressupõe também a transitividade: crianças
pequenas percebem a relação entre a e b e entre b e c, mas não podem perceber a
relação entre a e c.
d) o processo de comparação pode levar a criança a intuir a adição (e
consequentemente, a subtração). Ao perceber que um conjunto A é maior que um
conjunto B, “O que se deve fazer para que B tenha a mesma quantidade de A?”
Observe que a pergunta: o que fazer para que fiquem iguais sugere a
algumas crianças a repartição (e não a subtração, ou diferença): Se José ganhou
4 bolas e João ganhou 6, tire uma de João e dê a José.
João
|
José
|
●●●●●●
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●●●●
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●●●●●
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e) a noção de igualdade está intimamente relacionada às noções de adição e
subtração. Na divisão por dois, convém verificar se as crianças entendem
facilmente as expressões “a mesma coisa”, “duas partes iguais”, “igual”, ou se
elas preferem “metade”, “a mesma quantidade”, “o mesmo número”. O importante é
que elas relacionem “metade” com “duas partes iguais”.
f)
Comparações propostas às crianças
devem favorecer quantidades discretas e contínuas:
o
Quantidades contínuas: compostas por partes não distintas, isto é, que são percebidas como um
todo. Uma fruta, um copo com água, uma bola de massinha, etc.
o
Quantidades discretas: (ou descontínuas) são compostas por elementos distintos: um conjunto de
figurinhas, de bonecas, de tampinhas, etc.
A comparação é fundamental para classificar,
seriar, incluir e para a conservação (não variação).
Classificação: ato de separar em categorias de acordo com
semelhanças ou diferenças.
·
Na escola, a distribuição dos alunos por turmas;
·
Arrumação de mochila ou gaveta;
·
Dadas várias peças triangulares e quadriláteras,
separá-las conforme o total de lados que possuem.
Uma vez realizada a
comparação, torna-se possível separar os objetos segundo o que eles têm em
comum, ou que têm de diferente. Muitas das dificuldades que surgem na
classificação estão no processo de comparação mal realizado. Para classificar é
preciso escolher ou determinar um critério, e este baseia-se em um atributo
comum aos elementos que serão classificados. A facilitação se dá por meio de auxílio
na percepção de semelhanças e diferenças entre os objetos. É preciso que as
crianças manuseiem os objetos e descrevam o que observam neles. Pesquisas e
conhecimentos advindos da prática docente sugerem que o estabelecimento de
critérios perceptuais (cor, forma, tamanho) surge antes e mais facilmente que o
estabelecimento de critérios conceituais (que são abstratos).
Em uma escala crescente
de dificuldade, poderia se proposto:
1. Agrupamento de objetos que possuem algo em comum facilmente perceptível.
Por exemplo, dadas 2 fichas azuis, 3 verdes e 4 amarelas, todas misturadas,
separar as amarelas.
2. Continuação da classificação por observação: o professor começa a fazer uma
classificação sem explicar qual é o critério utilizado e as crianças, por
observação, devem continuar a classificar usando o mesmo critério. Por exemplo,
20 ou 30 barras da Escala Cuisinaire de comprimentos 4, 5, 6 e 7 cm, o
professor inicia a separação por tamanho (ou cores) e as crianças por imitação
devem segui-lo.
3. Classificação de objetos que exige descoberta de um critério. Por
exemplo, apresentar ao mesmo tempo uma fruta, uma folha (de árvore) uma
borracha e um pedaço de pão. As crianças devem descobrir um critério para
separá-los, tal como comestível ou não, mole ou duro, cor, etc.
4. Classificação dos mesmos objetos por distintos critérios. Por exemplo,
classificar os sapatos das crianças por tamanho, depois por cor, depois por
tipo (aberto, fechado, de amarrar, etc.).
5. Classificação dentro de outra classificação:
·
O material que cada criança leva para
a escola (para se agasalhar, para comer, para pintar, etc.) pode ser
classificado em ficar fora ou dentro da mochila; o material de dentro da
mochila pode ser classificado em comestível ou não.
·
Ao chegar das compras do
supermercado, escolher o que vai para a geladeira.
·
Dado um conjunto de sólidos
geométricos, separá-los por ter ou não pontas, e estes, por rolarem ou não.
Esse último tipo de classificação permite à criança a
percepção da inclusão, a ideia de conter e estar contido, de “estar dentro de”,
de subconjunto.
Sequenciação: ato fazer suceder a cada elemento um outro sem
considerar a ordem entre eles.
·
Chegada dos alunos à escola.
·
Entrada dos jogadores de futebol em campo.
·
Compra em supermercado.
Seriação: ato
de ordenar uma sequência segundo um critério.
·
Fila de alunos, do mais baixo ao mais alto;
·
Lista de chamada dos alunos;
·
Numeração das casas na rua;
·
Calendário;
·
O modo de escrever os números (123 é diferente
de 321).
Inclusão:
ato de fazer abranger um conjunto por outro.
·
Incluir as ideias de laranjas e de bananas em
frutas;
·
Meninos e meninas em crianças;
·
Professor e porteiro em trabalhador na escola;
·
Losangos, retângulos e trapézios em quadriláteros.
Conservação:
ato de perceber que a quantidade não depende da arrumação ou forma ou posição.
·
Uma roda grande e outra pequena, ambas formadas
com a mesma quantidade de crianças;
·
Um copo largo e outro estreito, ambos com a
mesma quantidade de água




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